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Microtrabalho: a força braçal humana por trás da inteligência artificial

Por todo o planeta, uma nova classe de empregados — chamados de microtrabalhadores — estão executando, silenciosamente, tarefas do mundo digital que, há 100 anos, seriam comparadas à cena de Carlitos apertando parafusos em uma linha de produção. Venezuelanos, brasileiros, iraquianos — são profissionais que não têm acesso a empregos ou a fontes de renda tradicionais, vivendo em países afundados em crise econômica.São pessoas de classe média, bem-educadas e com boa infraestrutura de internet que, de repente, caíram na pobreza“São pessoas de classe média, bem-educadas e com boa infraestrutura de internet que, de repente, caíram na pobreza”, diz Florian A. Schmidt, especialista em trabalho coletivo e professor de Design na HTW Dresden, Alemanha, em um artigo para a Fundação Hans Böckler (federação sindical alemã) sobre esse novo mercado de trabalho.Os microtrabalhadores geram dados transcrevendo, corrigindo e categorizando conteúdo, alimentando o aprendizado de máquina ao fornecer informações para os algoritmos identificarem preferências, modelos ou até mesmo tipos de discurso — a base do desenvolvimento da inteligência artificial.Na Venezuela, profissionais sem trabalho migraram em massa para plataformas online de crowdworking para a indústria de carros autônomos. O trabalho: desenhar caixas delimitadoras ao redor de imagens para ensinar aos carros o que é uma árvore, um cachorro ou uma bicicleta em movimento. Hoje, representam 75% da força de trabalho dessas empresas, com uma fonte de renda regular em uma economia em ruínas.Na Venezuela, profissionais liberais, como dentistas e médicos, ganham a vida desenhando caixas delimitadoras para ensinar IA a identificar obstáculos nas estradas (Fonte: BBC/Reprodução)Quem são os microtrabalhadoresA Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma pesquisa sobre o microtrabalho, entrevistando 3,5 mil pessoas em 75 países, para traçar o perfil dessa nova classe de profissionais. A idade média dos microtrabalhadores era de 33 anos, sendo um terço de mulheres (em países em desenvolvimento, um quinto).Menos de 18% dos entrevistados tinham somente o ensino médio; um quarto havia frequentado a universidade; 20% tinham pós-graduação. Mais da metade era especialista em Ciência e Tecnologia; 23% em Engenharia; 22% em Tecnologia da Informação. Ganham, em média, US$ 4,43 por hora — variando de acordo com a região (na África, a OIT registrou o menor valor: US$ 1,33).Para Paola Tubaro, professora associada no Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris, França, o microtrabalho não é transitório, mas estrutural no desenvolvimento de novas tecnologias e ainda invisível.A especialista lembra que até mesmo o debate ético em torno da inteligência artificial se concentrou na transparência e na imparcialidade dos algoritmos, mas “não levou em conta quem está por trás da própria produção da IA. Se o trabalho é como o das fábricas do século 19, isso é algo que nossa sociedade não deveria aceitar”.Por um trabalho que sustente a vida, e não o inverso(Fonte: Houghton Mifflin Harcourt/Divulgação)Essa é a mesma opinião da antropóloga Mary L. Gray, coautora de Ghost work – Como impedir que o Vale do Silício construa uma nova subclasse global, livro que trata do trabalho invisível em plataformas de tecnologia. Alguns pesquisadores disseram que não sabiam; outros, que não queriam saber, para não descobrir condições de trabalho desagradáveisPesquisadora sênior da Microsoft Research, quando ela chegou à empresa descobriu que a criação de inteligência artificial exige que pessoas alimentem os algoritmos com dados. “Perguntei quem eram as pessoas pagas para fazer esse trabalho. Alguns pesquisadores disseram que não sabiam; outros, que não queriam saber, para não descobrir condições de trabalho desagradáveis.”Em entrevista ao site The Verge, ela diz que “a classificação do emprego como a conhecemos não funciona mais. Parem de fazer com que as pessoas vivam pra trabalhar e comecem a fazer o trabalho servir à vida”.

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